Joao Gomes Realarte
Olhar a arte com olhos de ver. Looking at art with eyes that see.
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Blogue Artes Literárias

Este blogue é dedicado ao pensamento do dia e a vários artigos, sobre variadíssimos temas escritos pelo autor.

Disparates bíblicos (Continuação)

Segundo a bíblia sagrada, Maria concebeu sem pecado. Isto é, não precisou de manter relações sexuais com o marido, José, para gerar Jesus.
Ora, se a relação sexual entre marido e mulher é pecaminosa aos olhos de deus, não se compreende, porque é que deus não arranjou outra maneira de os seres humanos se reproduzirem.
O rei dos judeus, Herodes, ao saber que havia nascido no seio do seu povo um menino, Jesus, e que haveria de ser, em tempo oportuno, rei dos judeus, segundo rezava a profecia, temendo perder o trono (há que agarrá-lo com unhas e dentes), não está com meias-medidas, e manda matar todos os recém-nascidos, e por precaução, não fosse o diabo tecê-las, todos os bebés até aos dois anos de idade.
Vamos por partes. Segundo consta o território judaico era administrado pelos romanos (sendo o chefe da "pandilha" um tal Pôncio Pilatos que andava sempre a lavar as mãos, vá lá saber-se porquê), e as leis vigentes eram as romanas.
Pelos vistos os romanos só não se imiscuíam em questões religiosas dos judeus.
É no mínimo estranho que o rei Herodes mandasse assassinar centenas, se não mesmo milhares de crianças (desconheço a densidade populacional judaica da altura), e o poder romano não intervir perante tal barbaridade. Mas acreditemos que as coisas se passaram assim, porque os romanos estavam simplesmente marimbando para os judeus e para as suas parvoíces. (Nunca se sabe.)
Deus, omnisciente, sabendo da intenção de Herodes, ou não fosse ele omnisciente, envia sem demora um anjo a casa de Maria, para que este a avise das maléficas intenções do rei Herodes, e a convença a fugir o mais rápido possível para o Egipto (o mais rápido possível, o quanto é possível, montada num burro, mas enfim), com o menino Jesus, para que este pudesse escapar ileso às garras do rei Herodes.
Tal gesto de deus é simplesmente louvável. Mas, e infelizmente, há sempre um mas, raios partam os mas, deus esqueceu-se de enviar o anjo às casa das outras mães, que estavam precisamente nas mesmas circunstâncias em que se encontrava Maria, isto é, também tinham os seus bebés na mira do rei Herodes, e por ter-se esquecido dessas mães, estas acabaram por ver os seus lindos bebés trespassados pelas espadas dos soldados, do rei assassino e louco. (Neste caso, louco, aqui seria dispensável, porque um assassino já é um louco.)
Resumindo: Ou deus faz de uns filhos e outros enteados, o que é desde logo inconcebível, ou quem escreveu esta estória, que faz parte da história da bíblia, não passava de um escritor rasca. (Assim parecido comigo, ou com um outro que conheci, que ao princípio do livro a personagem chamava-se António, e a partir do meio já se chamava Ambrósio.)