Joao Gomes Realarte
Olhar a arte com olhos de ver. Looking at art with eyes that see.
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Blogue Artes Literárias

Este blogue é dedicado ao pensamento do dia e a vários artigos, sobre variadíssimos temas escritos pelo autor.

A morte

Preocuparmo-nos com a morte não nos adianta rigorosamente nada, porque ela, inexoravelmente, mais tarde ou mais cedo, vai acontecer, quer nos preocupemos ou não.
O tempo que passamos a preocupar-nos com a dita, não só não nos dá mais tempo de vida, como é bem provável que nos retire algum tempo dessa mesma vida. Se porventura não nos retirar algum tempo de vida, de certeza que nos retirará qualidade de vida. (Vivermos preocupados com algo retira-nos qualidade de vida). Sendo a morte um problema sem resolução, o problema em si, resolvido está. (O que não tem resolução resolvido está). Por isso não faz sentido preocuparmo-nos com um problema que à partida sabemos de antemão que não tem resolução. (Só uma pessoa que não esteja em seu perfeito juízo poderá agir assim.)
Podemos e devemos pensar de vez em quando na morte. (Meditar sobre o porquê da dita existir.) Porque não? Afinal a dita também faz parte da vida. Mas devemos encarar tal, com serenidade de espírito sem drama.
Agradecemos à Natureza o facto de termos nascido, porque haveremos de nos revoltar quando a dita diz que está na hora de partirmos?
Conta-se que estando Buda com os seus discípulos, apareceu um homem e ofereceu ao iluminado um pouco de comida que trazia com ele, sem desconfiar que a dita estava estragada. Buda aceitou, e pouco depois de a ingerir começou a sentir-se mal. Os discípulos, pelos sintomas que o mestre apresentava, rapidamente chegaram à conclusão que a comida devia estar estragada ou envenenada. Revoltados contra o homem que a dera ao mestre, quiseram de imediato linchá-lo. Só a pronta intervenção de Buda, ainda que em agonia, salvou o homem, ao dizer aos seus discípulos que aquele homem era tão importante quanto a sua própria mãe. A mãe tinha sido o meio para o trazer a este mundo (vida), aquele homem o meio para que ele saísse deste mundo (morte).
Se a Natureza nos pôs neste mundo, e à qual nós agradecemos, porque haveremos de dramatizar quando ela decide nos levar deste mundo?
Poderemos ver a morte de mil maneiras, mas a verdade é que ela é o principal motor que faz com que nós procuremos um sentido para a vida.