Joao Gomes Realarte
Olhar a arte com olhos de ver. Looking at art with eyes that see.
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Blogue Artes Literárias

Este blogue é dedicado ao pensamento do dia e a vários artigos, sobre variadíssimos temas escritos pelo autor.

Profissionais da mendicidade

Certo dia passeando com a minha esposa por uma rua da capital, por sinal apinhada de gente, chamada hora de ponta, eis que uma mão aberta e ávida por esmola se estende à minha frente. Retirei duas ou três moedas da carteira e depositei-as naquela mão que de imediato desapareceu. Uns passos mais à frente, confronto-me com outra mão aberta, o que me levou a proceder da mesma maneira, e tal como a primeira mão, também esta de imediato desapareceu. Ainda não tivera tempo de guardar a carteira convenientemente e já uma outra mão aberta implorava por umas moedinhas. Abri novamente "os cordões à bolsa" e dei mais duas ou três moedas. A minha esposa que até ao momento estivera calada dissera-me:— É a terceira vez que dás esmola à mesma pessoa.— Pois é. Pelos vistos a primeira vez que o mendigo me pedira esmola estava de chapéu, na segunda já não tinha o chapéu, provavelmente metera-o no bolso, e na terceira mais ou menos camuflado entre a multidão e de rosto virado para o chão, conseguira ludibriar-me duas vezes seguidas. E provavelmente mais, até se acabarem as moedas na carteira, se a minha esposa não me tivesse alertado.
Conheci-o a mendigar na rua de Santo António em Faro. Todos os dias lá estava ele sentado na soleira de uma porta de mão estendida. Foram anos a fio assim.
Um dia diz-me um amigo:— Olha aquele mendigo que estava sempre na rua de Santo António morreu. Pelos vistos tinha três filhos e deixou de herança um apartamento a cada um.— Resumindo: Afinal o mendigo tinha mais do que aqueles que lhe davam. 
Conheci um outro caso. Todos os dias o mendigo apanhava o autocarro para a cidade. Ao contrário do outro anterior, este não se ficava só pela rua de Santo António, percorria a cidade de “lés-a-lés”.
Ao final do dia metia-se novamente no autocarro e ao chegar à aldeia onde vivia, era vê-lo percorrer todas as tascas da dita para trocar as moedinhas por notas. Pelos vistos o ganho era substancial. Nada lhe faltava em casa, e quando apareceu a televisão a cores foi o primeiro da aldeia a adquiri-la, e pasme-se, pagou-a a pronto, enquanto a maioria comprava-a mas, a prestações.