Joao Gomes Realarte
Olhar a arte com olhos de ver. Looking at art with eyes that see.
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Blogue Artes Literárias

Este blogue é dedicado ao pensamento do dia e a vários artigos, sobre variadíssimos temas escritos pelo autor.

...Se soubesse ou que sei hoje...

— Ai! Se soubesse o que sei hoje, não teria feito tal coisa. —
Ou: — Se pudesse voltar atrás faria as coisas doutra maneira. —
Quantos de nós em determinada altura das nossas vidas, não lamentámos o que fizemos, e que não devíamos ter feito, e o que não fizemos e devíamos de ter feito?
Diz o povo sabiamente: — Não adianta chorar sobre leite derramado. — De facto não adianta rigorosamente nada, porque o leite derramado nem por artes mágicas vai voltar para dentro da bilha, e muito menos se a dita se partiu.
Mas porque havemos de lamentar o que não fizemos e devíamos de ter feito, ou o que fizemos e não devíamos de ter feito? Esquecemo-nos por acaso que o que somos hoje se deve precisamente a esses factores? Esquecemo-nos porventura que os erros do passado afinal não foram tão negativos quanto isso, e que se esmiuçarmos bem as coisas, chegamos à conclusão que afinal foram males que vieram por bem, na medida em que se tornaram os forjadores da nossa personalidade? Porque havemos de lamentar os erros se é com eles que se aprende? 
Porque havemos de lamentar os trambolhões que demos na infância se foi com eles que aprendemos a andar?
Se por artes mágicas pudéssemos voltar atrás no tempo, para reparar as asneiras que fizemos, não resolveríamos nada porque a experiência de vida que acumulámos até à data desapareceria nesse recuar no tempo. Recuaríamos no tempo mas a experiência acumulada não desapareceria? Era uma maravilha. Mais um pouco e acabaríamos por voltar ao ventre da mãe e depois nasceríamos já todos doutorados. Maravilha das maravilhas.
Se assim fosse que sentido teria a vida? Já nascíamos a saber tudo, não teríamos o prazer de descobrir coisas novas.
Nasceríamos já com o canudo nas mãos, mas isso implicaria não termos o privilégio de vermos o nosso esforço (estudo), compensado com o dito canudo, etc.
Se já nascêssemos a saber tudo a nossa vida não teria graça alguma. (Emoção.) Não haveria nada para descobrir.
Se a perfeição fosse alcançada seria a estagnação porque depois não haveria mais nada que pudéssemos almejar.
Na verdade a perfeição da vida está precisamente na imperfeição.
Dirão alguns que depois de se atingir a perfeição não existirá razão para almejar o que quer que seja. Será?
Buda, filho de réis, viveu até aos vinte e poucos anos no paraíso. (Palácio com frondosos jardins, mulheres lindas, e tudo o que um ser humano pode imaginar de bom.)
Seus pais, o rei e a rainha, fizeram de tudo para que ele nunca visse, ou suspeitasse o que se passava para além dos altos muros do palácio onde viviam. Tendo tudo o que um ser humano pode almejar sem ter de procurar, Buda nunca sentira necessidade de sair do palácio, e se alguma vez sentiu os pais devem tê-lo dissuadido, de maneira que o príncipe até  aquela data só tinha conhecido o que de bom existe na vida. Quando alguém afecto ao palácio adoecia ou mesmo morria os seus pais redobravam os cuidados  para que o filho não se apercebesse. Não obstante Buda viver no paraíso a verdade é que começou a fartar-se de tal. Aquela vida que vivia tão perfeita estava a saturá-lo. Mas como era possível, se todos nós almejamos ter essa vida? Mas estava, e tanto estava que um dia pediu a um criado que o levasse ao exterior quando tivesse afazeres no dito. Passado uns dias o criado precisando sair para fazer umas compras que o rei lhe encomendara preparou umas roupas suas para que o príncipe as vestisse conforme fora combinado, e esgueiraram-se para o exterior do palácio. Nessa saída Buda conheceu a doença, a morte, a fome, a miséria, a mendicidade, etc. Não obstante ter conhecido o "inferno" a verdade é que o príncipe Buda trocou o paraíso pelo dito e nunca mais voltou ao palácio. Como é possível? Abandonar o paraíso, quando todos nós ansiamos por ele? Porque conheceu a verdadeira vida. Na verdadeira vida existe a alegria, a tristeza, a doença, a morte, o perder, e o vencer, etc. A verdadeira vida é feita de constante mudança. No paraíso onde vivia era sempre tudo igual. (Estagnação.)