Joao Gomes Realarte
Olhar a arte com olhos de ver. Looking at art with eyes that see.
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Blogue Artes Literárias

Este blogue é dedicado ao pensamento do dia e a vários artigos, sobre variadíssimos temas escritos pelo autor.

Cristo humano ou deus?

Se Cristo era deus, todos os milagres que supostamente realizou, não tiveram nada de extraordinário, partindo do princípio de que para deus não existe impossíveis. Carlos Lopes ganhou a maratona. Não deixou de ser um grande feito, mas de extraordinário não teve nada. Era um atleta, treinava para isso. Extraordinário seria se não fosse atleta e nunca tivesse corrido na sua vida. Se Cristo era de facto um ser humano como todos nós, aí sim, que poderíamos considerar os supostos milagres que fez como algo de extraordinário.
Se Cristo era deus à partida está-nos vedada a hipótese de sermos, ou tentarmos ser como ele. Afinal somos simplesmente humanos. Dizem: — Temos de carregar a nossa cruz como Cristo carregou a sua. — Não. Não temos de carregar a cruz como ele a carregou, porque à partida estamos em desvantagem. Não se pode exigir a um simples humano, o mesmo tipo de sacrifício que um deus experimentou. As limitações de um ser humano são muitas. Em contrapartida, para um deus não existe limitações. Bom, pelo menos assim se supõe.
Já o caso muda de figura se de facto Cristo era humano como todos nós. Aí sim, é justo que carreguemos a nossa cruz tal como ele carregou a sua.
Se Cristo era um ser humano como os demais seres humanos, mas que ascendeu a um plano espiritual superior, então quer dizer que também está ao alcance de qualquer humano ascender a esse plano espiritual superior. (Não é o Mestre mais que o seu discípulo, e convém que o discípulo se igual ao Mestre.) Neste caso existem razões mais que suficientes para que nós os humanos o copiem, e tentemos igualar. Assim sendo, carreguemos então a nossa cruz, como ele carregou a sua, visto estarmos em pé de igualdade. Isto é, não é ele mais do que nós, nem nós menos do que ele, e que assim sendo, também podemos chegar ao nível espiritual superior que ele chegou.
Se Cristo era deus como muitos afirmam, então o melhor é estarmos quietos e abandonar a ideia de tentar ser como ele. Que hipóteses teríamos de fazer o que ele fez? Afinal somos simples humanos. Como poderíamos ter a pretensão de igualar a deus?
Creio que a divinização de Cristo foi um tremendo erro que a igreja cometeu. A certa altura Cristo afirmou: — Eu sou a verdade, o caminho e a vida. Ninguém chega ao pai a não ser através de mim. — Quer isto dizer que ele se considerava a ligação entre os homens e deus. Ou seja, para chegarmos a deus teríamos de trilhar o seu caminho, viver na sua verdade, vivermos a vida como ele a entendia. Em suma, tentarmos ser como ele.
Acontece que a igreja ao divinizá-lo cortou-nos esse elo de ligação com deus. Ou seja, se Cristo é deus, então ele não é o elo de ligação entre os homens e deus, mas sim o próprio deus. Resumindo: Aquele que nos poderia conduzir a deus foi transformado no próprio deus. Assim perdemos o mediador.