Joao Gomes Realarte
Olhar a arte com olhos de ver. Looking at art with eyes that see.
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Blogue Artes Literárias

Este blogue é dedicado ao pensamento do dia e a vários artigos, sobre variadíssimos temas escritos pelo autor.

O corpo e o espírito

O que é o espírito?

Acreditemos que o nosso corpo tem um espírito e que existe céu, e quando o nosso corpo morrer, o espírito vai para lá. Mas o que é o espírito? Um prolongamento do nosso corpo? Ou é o nosso corpo um prolongamento do espírito? A existir, terá o espírito consciência que habita num corpo? Terá o nosso corpo consciência que é habitado por um espírito? Como é que o espírito não sendo físico, porquanto não é palpável, não cheira, não é visível, em suma; não é matéria, pode estar "aprisionado" a um corpo que é pura matéria?
Porventura podemos pegar num pensamento e metê-lo numa caixinha? Não. E não porque o pensamento não é matéria.
Ora se o espírito não é matéria como pode estar "aprisionado" numa caixinha que é o nosso corpo?
Admitindo que as coisas se passem assim; isto é, que o espírito existe dentro do corpo, e que escapa à nossa compreensão a razão de tal, uma outra questão se levanta. 
Veio o corpo à existência por causa do espírito, ou o espírito à existência por causa do corpo? A eterna questão (quem nasceu primeiro, a galinha ou o ovo?).
Supondo que o espírito veio à existência por causa do corpo; ou seja, o corpo deu existência ao espírito. É no mínimo estranho. Um corpo mortal gerando um espírito imortal. Mas se o corpo veio à existência por causa do espírito, ainda mais estranho é. Neste caso é o imortal gerando um corpo mortal.

São espírito e corpo, uma só coisa?

Se são, logo o corpo do João quando morrer, o seu espírito morrerá com ele. São duas coisas distintas? Então quer dizer que o corpo do João quando morrer vai para a terra, e o espírito que habita nele vai para o céu. Neste caso o João não irá para o céu, não será eterno, não irá juntar-se aos seus entes queridos que já faleceram, porque tal como o João, eles também não foram para o céu, mas sim os espíritos que habitavam neles. Assim sendo a nossa imortalidade não passa de utopia. Se de facto o espírito é um prolongamento do nosso corpo, deixará de o ser no momento em que o nosso corpo morrer, e tornar-se-á num outro ser, que já não terá nada a ver com aquilo que já foi.

Vejamos o exemplo da lagarta

O João é uma lagarta. Vive como uma lagarta, pensa como uma lagarta é efectivamente uma lagarta. Morre (metamorfose). Nasce uma borboleta. Comerá como uma borboleta, pensará como uma borboleta, agirá em conformidade como os da sua espécie.
Terá a borboleta memória que noutra vida já foi uma lagarta?
Se assim for, nunca desfrutará em plenitude a sua nova entidade. Viverá dividida entre aquilo que é, e aquilo que já foi.
O mesmo se passará com um espírito que vá para o céu e que habitou num corpo humano. Dividido entre o céu e a terra nunca poderia desfrutar o paraíso plenamente. Os cuidados com os entes queridos que deixou na terra não lhe dariam descanso. Sendo assim não viveria no céu mas sim numa espécie de limbo.
Se de facto o espírito do João não tem memória da sua vida anterior, quer dizer que o João de facto não é eterno. Simplesmente serviu de hóspede a um espírito enquanto viveu, tal como a lagarta serviu de hóspede à borboleta. 

O que é o céu?

Um lugar físico? Cristo disse a certa altura aos seus discípulos: A casa do meu pai, (entenda-se céu) tem várias moradas, vou prepara-vos uma. Mas é o céu um lugar físico algures no espaço? Se é, o espírito que vá para lá, terá de arranjar um corpo físico, à semelhança do que se passa neste mundo (planeta) para poder entrar, estar, e permanecer, uma vez que, não sendo o espírito matéria, terá de encarnar na matéria para poder permanecer nela, o que à partida é uma enorme contradição. Não estando o espírito sujeito à matéria, aloja-se num corpo material (humano) para poder estar e permanecer na matéria.
Não é o céu um espaço físico? Se não é, a situação torna-se menos complexa. Sendo o espírito antimatéria e o céu igual, já não se põe obstáculos ao espírito para entrar, e permanecer no dito.

Voltemos de novo ao dilema

Veio o espírito à existência por causa do corpo, ou veio o corpo à existência por causa do espírito? 
Se o corpo veio à existência por causa do espírito, estamos perante um caso que poderíamos classificar como involução. O imortal gerando o mortal, A antimatéria gerando matéria, para nela poder habitar para assim poder estar, e permanecer na matéria. E isto para não falar da tremenda contradição que já se explicou mais atrás no texto, ou seja, não estando o espírito sujeito à matéria, arranja um corpo físico para habitar, para assim poder estar e permanecer na matéria. (Nosso mundo.)
Se o espírito veio à existência por causa do corpo, aí estaremos perante um caso que poderíamos classificar como um estado evolutivo. Ou seja; a matéria gerando a antimatéria, o imperfeito gerando o perfeito, o mortal gerando o imortal.
Mas se assim é, uma outra questão se levanta, bom, uma questão é como quem diz, várias questões.
Se de facto as coisas se passam assim, isto é, se evoluem, teremos de admitir que o próprio deus também evoluiu até chegar à perfeição. Ou ainda está a evoluir.
Mas deus já é perfeito dirão alguns. Mas se é perfeito não parece. Se fosse perfeito teria feito tudo perfeito. Mas ocupemo-nos só de humanos. Se deus fosse perfeito ter-nos-ia feito perfeitos, e a verdade é que as coisas não se passaram assim, ou não se passam. Que se saiba não existem seres humanos perfeitos. Poderá nascer nos humanos algo perfeito, ou seja, o espírito, mas tal como o corpo do humano, também o espírito parece fruto de um processo evolutivo. Sendo deus perfeito como pode criar criaturas que depois precisam de um processo evolutivo para se tornarem perfeitas?
Bom depois de todo este arrazoamento, e tal arrazoamento é partindo do princípio que o espírito veio à existência por causa do corpo, porque se de facto é ao contrário, ou seja; o corpo veio à existência por causa do espírito, a situação torna-se mais complexa.
Sendo deus perfeito, cria espíritos perfeitos, mas se esses espíritos são perfeitos, que necessidade têm de encarnarem em corpos imperfeitos, ou seja; nos humanos?
Com que finalidade esses espíritos encarnam nos humanos? Saindo do bem bom (céu), vêm para este vale de lágrimas (terra). Fazem-no por solidariedade? Ou seja, encarnam num corpo humano para que este possa viver? Admitindo que sim, tal acto de solidariedade pode-lhes custar caríssimo, porque se arriscam a nunca mais poderem voltar ao paraíso. Como? Simples, se o corpo onde esse espírito se alojou para lhe dar vida se portar mal, arrisca-se esse espírito a ir para o inferno, porque sabemos que o corpo que se portou mal vai para a terra, e não sofrerá as consequências dos seus actos, mas sim o espírito que habitou nesse corpo.

Uma teoria que não tem ponta por onde se pegue

Temos de admitir que a teoria de o corpo vir à existência por causa do espírito não tem ponta por onde se pegue.
Afinal, e o que faz mais sentido é o espírito vir à existência por causa do corpo. E em que altura é que o espírito aparece no corpo? Na altura da concepção? Ou seja; no momento em que o espermatozóide entra no óvulo? Aparece mais tarde? Vai crescendo? Mas como? Para crescer tem de ter uma fonte de alimentação, tal como o corpo humano. Mas neste caso, se o espírito nasce, cresce, um dia terá de morrer. Tudo o que tem princípio tem fim. Só poderá ser eterno, aquilo que não teve princípio, ou seja aquilo que não é, aquilo que não conhece um estado de ser. Porque um estado de ser já implica que houve um princípio, precisamente para formar esse estado de ser, e como tal, como tudo o que tem princípio terá fim. Ora se o espírito veio à existência por causa do corpo, o espírito conheceu um princípio e como tal terá um fim.

Permanecer imutável

No fundo só poderá permanecer imutável, aquilo que não conheceu estado de ser, ou seja o nada. Por isso o budismo, o verdadeiro budismo, o budismo de Buda, que não tem nada a ver com reencarnações e outras tontices, depois da morte o que os verdadeiros budistas esperam, não é o paraíso, nem o inferno, nem deus nem o diabo, mas sim o nada. O grande nada, o supremo nada.