Joao Gomes Realarte
Olhar a arte com olhos de ver. Looking at art with eyes that see.
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Blogue Artes Literárias

Este blogue é dedicado ao pensamento do dia e a vários artigos, sobre variadíssimos temas escritos pelo autor.

Mensagem de Natal de um ateu

(Antes de mais gostaria de esclarecer que o facto de ser ateu não me impede de ponderar a hipótese de Cristo ter existido.
Obviamente que não o verei como a maioria dos que crêem nele o vêem. Não o vejo como um deus na terra operando milagres, tais proezas acredito que fazem parte do mito, mas sim como um homem, e não poderei deixar de referir, um homem com H grande, mas mortal como todos nós. Seja como for. Se Cristo existiu ou não, é-me de todo pouco ou nada relevante. Já o mesmo não poderei dizer sobre a mensagem deixada ao mundo há dois mil anos e que lhe é atribuída. Posso duvidar da existência de Cristo, e estou no meu direito de duvidar, também Tomé duvidou e não foi excluído por isso, mas não da mensagem. Essa existe. Essa está escrita.
A verdade é que pouco, ou nada importa, se foi Cristo o autor da mensagem, ou se foi outro autor, ou mesmo outros autores. A mensagem vale por si só e não perde valor não tendo um rosto a quem se lhe atribuir. 
Ora bem, não estando o ateu totalmente isento de valores, no fundo, um ateu é um ser humano como outro qualquer, com os seus defeitos e as suas qualidades, embora há quem pense que o ateu é o bicho-papão, só porque não comunga da mesma ideia que os crentes têm em relação à religião, mas não comungar da mesma ideia ou opinião, não quer dizer que ele não reconheça o valor da mensagem que está escrita. No fundo só uma pessoa isenta de escrúpulos é que não reconhece valor da dita mensagem. Não vamos acreditar que todos os ateus são gente sem escrúpulos porque isso seria uma grande injustiça.
Claro que não sendo o ateu movido pela fé religiosa, e diga-se de passagem que muita fé pode ofuscar, ele ao ler a mensagem separa sem qualquer pejo o trigo do joio. Isto é, aquilo que ele acha que é real, (o trigo) e aquilo que acha que faz parte do mito (o joio). Tarefa, esta, bem difícil para o crente que ofuscado pela fé, nem todos, não consegue separar.)
Afinal o que é o Natal? 
Uma corrida desenfreada ao consumo? 
Uma ajuda ao necessitado já com trezentos e sessenta e quatro dias de atraso? 
Brincar à caridadezinha sob as luzes da ribalta? 
Hipocritamente desejar feliz Natal a quem não se pode ver pela frente?
Dar um dia de pausa às garras que estiveram muito activas durante todo ano? 
Comparar a nossa magnífica prenda que oferecemos com aquela prenda de meia-tigela que recebemos? Ou vice-versa? 
Afinal o que é o Natal? 
Celebrar o nascimento de Cristo? Mas como se o protagonista nesta quadra é um homem vestido com as cores da coca-cola e que apela ao consumo desenfreado?!
Afinal o que é o Natal? 
Mentir aos filhotes dizendo-lhe que escrevam ao pai natal pedindo-lhe a prenda que gostariam de receber? E se a prenda é demasiado dispendiosa arranjar uma desculpa esfarrapada e induzir as crianças a pedir algo mais em conta? 
Afinal o que é o Natal? 
Ter uma mesa farta nesse dia, e empanturrar-se até mais não? 
É isto o Natal? 
Creio que não. Não será o Natal um tempo para que as famílias se juntem e reforcem os laços familiares? 
Não será um tempo de reflectir sobre a mensagem e tentar perceber se o nosso estilo de vida se coaduna com a mensagem? 
Certamente que o suposto autor dessa mensagem não quereria ser adorado mas sim que seguissem o que foi dito na dita.